Lucas Headquarters #231 - Sentir sede e beber daquela água que jurámos nunca mais beber
Ora então boas tardes, comadres e compadres!! Como estão?
Sejam bem-vindos a mais uma edição de “Lucas Headquarters” aqui no
WrestlingNotícias!! Como foi esse vosso fim-de-semana? Curto, presumo eu. Mas
tudo o que é bom acaba depressa… ou isso ou temos que aprender constantemente a
aproveitar os pequenos prazeres da vida (onde se inclui, naturalmente, o
fim-de-semana).
Em jeito de introdução do que me traz aqui hoje, cumpre-me
deixar aqui uma pequena nota introdutória: À hora que este artigo sai, muito
provavelmente ainda estarei a ver o Revolution, até porque já me chegou aos
ouvidos que aquilo durou para cima de cinco horas e meia. E não, não venho aqui
reclamar do tamanho do matchcard – e,
por conseguinte, da duração do evento – até porque a minha posição quanto a
essa matéria já está mais que bem vincada, não é preciso bater no ceguinho
senão ele começa a ver…
A questão – ou melhor, as questões - que me trazem hoje aqui
são outras. A primeira é que já apanhei spoilers
do PPV (um gajo nunca aprende que não convém ir às redes sociais depois de
um PPV), e a segunda é uma questão que, independentemente de tudo, só podia
abordar hoje precisamente por causa do Revolution. Mas é uma questão que eu até
costumo comentar muitas vezes em off, e que me dá uma certa piada.
Para começo de conversa – e para que vocês percebam do que é
que eu vou falar aqui hoje – vamos começar por refletir sobre duas coisas (ou,
melhor dizendo, dois conceitos). O primeiro é o conceito de “reforma”, ou como se diz
cientificamente, “aposentação”. O segundo, muito mais universal, é o conceito
de “gratidão”. E ambos os conceitos têm um elo em comum, que já vão descobrir
qual é.
Para entender o primeiro, vou citar-vos alguns exemplos mais
ou menos conhecidos de “aposentações” – notem as aspas – que têm acontecido no
mundo do wrestling nos últimos anos.
Goldberg,
2004.
Shawn Michaels, 2010.
Undertaker, 2017.
Este último é um caso mais discutível, porque Undertaker não
confirmou nada – apenas deu o sinal – e acabou por voltar em 2018 para se
redimir daquela má performance que teve contra Roman Reigns (e que ele próprio
repudiou). De facto, o Deadman acabaria
por converter esse suposto fim de carreira numa espécie de “Sprint Final” que
incluiu combates contra John Cena, Drew McIntyre e AJ Styles – agora também ele
um Hall of Famer certificado. Mas
pronto, como ele era para ter ido embora, mas depois acabou por voltar, seja
ele incluído nesta lista.
Já perceberam o padrão, não já? Isto é tudo gente que disse –
ou, no mínimo, deu a entender - que tinha chegado a sua hora de ir embora, que
já não dava para mais, que as prioridades, naquela altura, já eram outras.
Mas Goldberg voltou em 2016, num dos regressos com menos hype desde que me lembro (e que, poucos
anos depois, podia muito bem ter acabado em tragédia), e Shawn Michaels,
tentado pelo dinheiro das Arábias mas já com um físico comparável a um avô no
auge dos seus sessenta anos, regressou em 2018 para protagonizar um dos piores
combates desde que há memória. Curioso que Undertaker esteve envolvido nestas
duas conjunturas potencialmente desastrosas. Uns dirão que é estar no ringue
errado, na hora errada; outros dirão, cá está, que é o dinheiro das Arábias que
fala mais alto e que, quando assim é, vale tudo para entreter o público.
Deste pequeno conjuntinho safam-se, definitivamente, o
Batista (que enveredou por uma bem-sucedida carreira em Hollywood – onde, de
resto, já era presença regular -, perdeu peso e massa muscular e que já deixou
bem claro que não pretende estragar o final perfeito que a sua carreira teve)
e, para já, John Cena (que também não acredito que alguma vez possa voltar, se
há coisa que o Cena é, é um homem de palavra). Veremos se com AJ Styles isso se
verifica, para já ainda é relativamente cedo para dizer, até porque passaram
dois meses desde a sua aposentadoria, vamos ter a sua introdução no Hall of Fame em Abril… portanto teremos
de esperar, se calhar, um ano ou dois para perceber se AJ se vai manter fiel à
sua palavra nesse assunto.
De qualquer forma, a conclusão que se tira daqui é que a
aposentadoria, no que toca a wrestling,
vale menos que nada. O conceito em si até tem fundamentos bonitinhos, bem-intencionados,
mas não é preciso muito para entender que, na maioria das vezes, a
“aposentadoria” só acontece por duas razões: Ou a malta não aceita que,
chegados a uma altura da carreira, o protagonismo tem de ser dado aos jovens
(porque o wrestling, para manter a
qualidade e a credibilidade do produto, tem de estar em constante renovação),
ou então o cascalho deixa de tilintar da mesma forma que há vinte anos.
Outra coisa é a gratidão. Sim, gratidão, esse conceito que,
no mundo acelerado e insensível no qual vivemos hoje em dia, parece cada vez
mais difícil de assimilar.
Isso explica porque é que, por exemplo, Brock Lesnar ainda
continua a aparecer na programação da WWE e ainda está a ser equacionado para a
WrestleMania: Porque ele é uma box office
attraction, que atrai público e dá dinheiro. Mesmo com todas as acusações
feitas contra ele – e que eu continuo a reiterar que deviam ser motivo para ele
nem sequer lá pôr os pés – a verdade é que a WWE continua a tê-lo em muito boa
conta, mesmo que a nós nos repudiem – e com justiça – todas as suas ações do
ponto de vista moral.
“E o que é que tudo isto tem a ver com gratidão?”, perguntam
vocês. E eu respondo-vos: Tudo. Tudo porque há gente que já esteve na
indústria, sabe perfeitamente que foi por causa da indústria que atingiu (ou
neste caso, consolidou) fama, e mesmo assim continua a achar que todos lhes
devem e ninguém lhes paga.
E sim, aqui falo de CM Punk, muito embora o seu regresso à WWE tenha acontecido por motivos de “changing of the guard”, isto é, mudança de gerência. Punk cometeu um erro ao longo de todos estes anos pré-segunda vida na empresa, que foi posicionar-se contra a WWE de uma forma que nos faz crer que a WWE representava a totalidade da indústria do wrestling, ponto de vista que só o ingresso na AEW, no Verão de 2021, conseguiu fazer com que mudasse.
Mas Punk também foi inteligente o suficiente para, mesmo na crítica,
se manter cauteloso na forma como o fazia e procurar outras maneiras de
colaborar, ainda que indiretamente, com a empresa (lembram-se das suas
contribuições para o “Backstage”, da FOX?), até porque sabia que a sua esposa
tinha deixado muitas saudades por lá, quer a nível dos responsáveis quer a
nível dos fãs.
Por isso sim, podia falar de CM Punk, mas não o farei. Vou
falar, isso sim, de Ronda Rousey, que
neste Revolution apareceu ao lado de Marina Shafir após o combate desta contra
Toni Storm.
Então mas, a Ronda Rousey não era aquela que, a partir do
Main Event da WrestleMania em 2019, se marimbou completamente para o wrestling?
Então mas, a Ronda Rousey não era aquela que, quando voltou à
WWE em 2022 para uma última run,
parecia que estava a fazer uma birra maior do que a de uma criança de sete anos
que amua porque os pais não lhe compraram o brinquedo que queria, e parece que
só estava ali a cumprir uma obrigação contratual?
Então mas, a Ronda Rousey não foi a mesma pessoa que, depois
de terminada essa segunda run,
declarou que nunca mais voltaria à indústria e disse cobras e lagartos da WWE e
de todos os que lá trabalhavam?
Sim, é mesmo essa Ronda Rousey.
Atenção, nós não sabemos se o que se passou no Revolution foi
apenas uma espécie de one-off appearance ou
se, de facto, estará nos planos de Rousey dar ao círculo quadrado uma nova
chance. Mas também é verdade que Rousey apareceu pela primeira vez na WWE em
2015 ao lado do The Rock (WrestleMania 31, se bem se lembram) e depois disso
demorou mais três anos até chegar em definitivo à WWE.
Também não estou aqui a tomar partido da WWE, mas todos
sabemos que um ingresso no pro wrestling era
um desejo há muito incluído na checklist da
Baddest Woman on the Planet.
Portanto, ter virado costas à indústria e voltar agora, fazendo de conta que
nada de anormal aconteceu é um bocadinho tartufista, para ser bastante
simpático.
Porque não é por fazer uma aparição, só que seja, num PPV de
uma das maiores empresas de wrestling a
nível mundial, que os fãs apagam da memória tudo aquilo que ela disse sobre a
indústria e a forma como se posicionou perante ela nos últimos anos. Bem
sabemos que a sua presença no Revolution tem por base a amizade – Marina Shafir
é uma das suas melhores amigas e acabou de ter o combate mais importante da sua
carreira contra Toni Storm – mas depois de tudo aquilo que fez (e disse) do wrestling, o seu regresso soa-me, quanto
muito, a desespero.
No fundo, Ronda Rousey acaba por confirmar que o que nos diz
o provérbio é inteiramente verdade: “Nunca
digas “desta água não beberei”, porque podes acabar por sentir sede…”.
E vocês, o que acham desta presença de Ronda Rousey no
Revolution? Estará a Baddest
Woman on the Planet a tentar voltar ao wrestling?
E assim termina mais uma edição de “Lucas Headquarters”! Não
se esqueçam de passar pelas nossas redes sociais, sugerir temas na caixinha aí
de baixo… o costume. Para a semana cá estarei com novo artigo!!
Peace and love, até ao meu regresso!!




