Lucas Headquarters #230 - Comedy wrestling: Porque é que é tão importante?
Ora então boas tardes, comadres e compadres!! Como estão?
Sejam bem-vindos a mais uma edição de “Lucas Headquarters” aqui no
WrestlingNotícias!! Ora digam-me cá: E esse Dia da Mulher, como é que foi? Bom,
um dia como o de ontem… já sabemos que para uns foi dia da mulher, e para
outros foi dia de Clássico, portanto aquela velha máxima de “nada de bola, que
eu quero ver a novela!” até se terá adequado na perfeição. Mas enfim, agora
falando um pouco mais a sério, espero que todas as mulheres tenham tido um
grande dia, em especial – como é óbvio – aquelas que gostam de wrestling!!
Bom, hoje não venho aqui falar-vos de um qualquer evento a
ter lugar neste nosso mundo (muito embora o Cinderella Tournament da STARDOM já
esteja a decorrer a todo o gás), nem venho aqui destacar um wrestler em específico. Hoje apraz-me
refletir sobre aquela vertente do wrestling
que, convenhamos, nem sempre é bem entendida por quem o vê (e que é a
fonte, diria eu, de alguns preconceitos relacionados com a modalidade) mas que,
sobretudo desde a última década, se tem tornado algo cada vez mais fundamental
na forma de ver e entender este desporto: Comedy
wrestling.
E apraz-me refletir sobre comedy
wrestling porque, para além de ser um recurso que tem vindo a ganhar
destaque sobretudo na segunda metade da década passada, é também um recurso do
qual a WWE tem feito bastante uso recentemente, e de uma forma cada vez mais
vincada. Porque quando o comedy wrestling
começou a fazer parte da programação rotineira da empresa, aí por volta de
2009, só havia, numa primeira fase, Santino – com todas as suas idiossincrasias
e punchlines, depois Fandango, depois
R-Truth, depois New Day, e agora, para além do R-Truth, ainda há Danhausen, que
para além de fazer comedy wrestling,
dá a essa vertente da modalidade uma faceta que se aproxima muito do humor nonsense. Mas já iremos analisar esse
caso.
Comedy wrestling: O que é?
Acho que a definição de comedy
wrestling é bastante óbvia e não requer grandes explicações. Basicamente
estamos a falar de um subgénero de
wrestling que destaca o humor em detrimento da ação estritamente física que se
passa dentro do ringue, fazendo para isso uso de gimmicks mais absurdas – e, na maioria dos casos, infantis – spots intencionalmente parvos e
divertidos, e humor também ele, absurdo, orientando o wrestling num sentido “dadaísta” e pouco rigoroso.
Comedy wrestling: Porque é que existe?
Uma analogia
Importa, então, tentar perceber porque é que existe o comedy wrestling, e nesse aspeto a
explicação é bastante óbvia. Mas como eu sou vosso amigo e faço tudo para vos
facilitar (ainda mais) a vida, vou usar uma analogia que creio que todos vão
conseguir apanhar.
Pensem no Rei Leão. Pensem em toda a sinopse que lhe dá corpo, sobretudo aquela parte em que a intensidade começa, paulatinamente, a crescer: Há a interação do Simba com o Scar, quando o então jovem príncipe diz ao tio que vai ser rei daquilo tudo, e a partir daí o Scar começa a enganar o sobrinho com a história do Cemitério de Elefantes, a dizer que só os valentes é que lá vão, o que faz com que ele queira provar que é valente - como se isso fosse qualidade suficiente para definir um futuro rei – naquilo que é, na verdade, um primeiro plano para acabar com a sua vida do sobrinho e reclamar o lugar que ele julga ser seu por direito na linha de sucessão.
Depois, há aquela
cena da debandada de gnus que mata o Mufasa, Simba é exilado, Scar assume o
trono e, no seguimento disto, aparecem o Timon e o Pumba como duas personagens
que, não tendo nada a ver com a linha de ação dita principal de toda a História
– a preparação e ascensão do Simba ao trono – acabam por aliviar um bocadinho a
carga emocional do filme, depois de um conjunto de cenas fortes e, diria até,
muito dramáticas do ponto de vista emocional – sobretudo para nós, que éramos
criancinhas quando vimos o filme e tivemos, naquela altura, o primeiro contacto
com essa ideia de morte.
E agora, pensem no wrestling.
Mas não pensem no wrestling apenas
como algo que se resume a monólogos, confrontos, promos, ação física e brigas
fisicamente intensas, algum sangue e tudo mais – porque isso, bem o sabemos, é
a ponta do icebergue. Pensem naquilo que, muitas vezes, é preciso acontecer
para que o wrestling faça a sua
magia. Nas referências culturais – ou até da própria vida pessoal dos wrestlers – das quais as equipas
criativas têm de se socorrer para desfocar a linha ténue que separa o real da ficção.
Por exemplo, a morte do Paul Bearer em 2013, que parece ser a
origem da feud entre CM Punk e
Undertaker para a WrestleMania 29 sem que, na verdade, as duas coisas estejam
intimamente relacionadas na vida real. Ou então, a relação entre CM Punk e
Larry, o seu animal de estimação recentemente falecido, que foi tantas vezes
explorada por Drew McIntyre na feud
entre os dois. Ou então, na mais recente promo entre CM Punk e Roman Reigns, a
forma como o Second City Saint dá a
coisa por encerrada: “I’m gonna bury you
next to your father!”, numa clara alusão ao falecido pai do Tribal Chief.
Ora, temos uma analogia com o Rei Leão e temos três casos de
fatores que conferem intensidade ao wrestling,
dentro e fora dele. Então, porque é que o comedy
wrestling existe?
Existe precisamente para amenizar essa intensidade de que o wrestling tantas vezes se serve. Para
deixar o produto respirar um pouco, sem nunca perder as marcas e os traços
daquilo que faz do wrestling… o wrestling.
E, depois, ainda existe outra perspetiva, e esta, na minha
opinião, ganha ainda maior importância nos dias de hoje.
Olhem para o mundo à vossa volta. Agora, não interessa a
forma como se posicionam, política e ideologicamente nele. Olhem, só.
Guerras por toda a parte e de todo o tipo. Desde a Europa ao
Médio Oriente, não há noticiário ou bloco informativo que não abra, à hora
certa, com a notícia de que “já foi bombardeada mais uma instalação nuclear do
país X”, ou que “20 pessoas morreram e outras 20 ficaram feridas num ataque
perpetrado pelo país Y”.
Desde há pelo menos quatro anos que isto faz parte da nossa
rotina, porque, naturalmente, existe vida para além do ringue. Perante toda
esta conjuntura, eu creio que faz todo o sentido que o comedy wrestling continue a ser explorado, sobretudo como forma não
só de alívio cómico dentro do próprio wrestling,
mas também fora do seu raio de ação.
R-Truth, Danhausen e Saki Kashima: Os três
casos mais conhecidos do comedy wrestling atual
e o seu papel nos respetivos “polos” do wrestling
Quando falamos de comedy
wrestling, há muitos wrestlers que
nos assaltam imediatamente o pensamento. Nos anos 90, Gobbledy Gooker e, em
certa medida, Goldust – muito embora o booking
dessa icónica gimmick de Dustin
Rhodes não fosse, nessa altura, tão orientado para a comédia como noutras fases
da sua carreira, no princípio era mais para a extravagância. Na primeira década
de 2000, Eugene e, mais tarde, Santino Marella; na década passada, R-Truth, New
Day, Fandango, Tyler Breeze (e até Chris Jericho, naquela icónica fase da List of Jericho entre o Verão de 2016 e
o Verão de 2017); nesta década; Danhausen e Saki Kashima.
De toda esta lista, há três nomes que ainda hoje desempenham
esses papéis e veem neles uma forma de manter a relevância e o carinho que
conquistaram junto do público: R-Truth,
Danhausen e Saki Kashima, precisamente. Aliás, arriscaria dizer que,
sobretudo no caso de R-Truth, que ainda teve vida antes de ser comedy wrestler – foi United States
Champion e Tag Team Champion com The Miz e Kofi Kingston, para além de um breve
período como heel precisamente na
altura em que foi Campeão com o A-Lister,
muita gente se lembrará mais dele pela sua comedy
gimmick do que propriamente por outras aventuras que ele tenha
protagonizado.
Mas há, no entanto, outra pergunta – para queijinho, também –
que surge no meio de tudo isto: Qual o papel destes três exemplos no contexto
atual do wrestling e nas respetivas
empresas?
No caso de R-Truth e Danhausen, creio que a resposta tem mais
a ver com a manutenção de uma certa relevância dentro do roster (e quando falamos do primeiro, esse aspeto ganha ainda mais
relevância, porque R-Truth é também um membro muito acarinhado por todos dentro
do roster).
Há, no entanto, uma ligeira diferença: Enquanto que o fator definidor para que R-Truth começasse por fazer comédia acaba por ser a idade (ele começa a exercer esse papel já bem para lá dos 40, depois de já ter perdido algum espaço dentro do roster em virtude do natural favorecimento de talentos mais jovens) o caso de Danhausen prende-se sobretudo com o seu físico e técnica em ringue.
Danhausen tem uma moldura corporal semelhante à de qualquer um de nós: 1,78m e 82 kg, mas enquanto que, por exemplo, Bryan Danielson era um wrestler com uma técnica e ring awareness excecionais com uma moldura humana semelhante, Danhausen nunca conseguiu atingir esses níveis – e não será agora, com 35 anos, que o vai fazer. Portanto o mínimo que lhe pode acontecer para se manter relevante é ir fazendo estes comedy spots, tentando conquistar o respeito dos fãs e quem sabe, se cair no goto destes, talvez daqui a uma década estejamos perante um Hall of Famer, já que, sejamos honestos, também não é preciso um grande currículo para lá entrar (se até o Goldberg, que no seu currículo tem pouco mais do que um World Championship ganho na WCW, foi lá parar, porque não o Danhausen?).
O caso de Saki Kashima é diametralmente diferente. O polo
japonês do wrestling valoriza o wrestling puro em detrimento do
americano, que por ação de uma certa influência hollywoodesca coloca mais
ênfase na gimmick. E se é verdade que
Saki Kashima não é, também ela, um prodígio do ringue (e notem que eu podia
estar tentado a dizer outra coisa só porque ela se vai embora no mês que vem),
também é verdade que há sempre mais espaço para ela poder exercer o papel de comedy wrestler porque, em virtude do
ênfase posto na ação em ringue, essa é uma vertente que, para o fã japonês, é
uma novidade constante, portanto, não importa quantos comedy wrestlers apareçam daqui para a frente, vai sempre haver
espaço para que esse papel resulte.
Em suma, o comedy
wrestling vem a assumir cada vez mais um papel fundamental naquilo que é a
dinâmica atual do wrestling, e é
interessante verificar que wrestlers que
não são conhecidos por fazer papéis de comédia de forma tão frequente já o
fizeram nalgum ponto das suas carreiras. Porém, é sempre importante dar comedy gimmicks às pessoas certas e não
sobrepor o papel da comédia ao papel da ação. A comédia no wrestling é tão mais eficaz se for servida em pequenas doses. Se as
doses aumentarem, é só… stand-up comedy com
leves pancadinhas.
E vocês, o que pensam sobre o papel do comedy wrestling no wrestling
atual? Consideram ser algo necessário? Que exemplos de bons comedy wrestlers destacariam?
E assim termina mais uma edição de “Lucas Headquarters”! Não
se esqueçam de passar pelas nossas redes sociais, sugerir temas na caixinha aí
de baixo… o costume. Para a semana cá estarei com novo artigo!!
Peace and love, até ao meu regresso!!






