Lucas Headquarters #227 - Surpresa!!
Ora então boas tardes, comadres e compadres!! Como estão?
Sejam bem-vindos a mais uma edição de “Lucas Headquarters” aqui no
WrestlingNotícias, tarde e a más horas, porque às vezes os deveres familiares
assim nos obrigam.
Ora digam-me cá: E esse Carnaval? Vão passá-lo em casa, ou
vão aproveitar para ir a um dos poucos desfiles que ainda são organizados? Isto
não está para grandes carnavais, bem o sabemos. Mas pronto, pelo menos já temos
o sol de volta, muito embora,no dia de ontem, as nuvens ainda tenham teimado em
aparecer.
E hoje, na senda daquilo que aconteceu na mais recente edição
do Dynamite (a que teve lugar antes do Grand Slam Australia), apetece-me
meditar sobre uma das grandes… picuinhices (ou pet peeves, se vos
apetecer ser poliglotas) da geração que cresceu a ver wrestling naqueles
tempos áureos e já distantes em que a internet já era uma realidade, mas ainda
não estava massificada e ainda funcionava como escape da vida real (não como
agora, em que parece que a vida real é um escape da internet).
Quando falamos sobre a forma como o wrestling
evoluiu desde a altura do boom em Portugal até hoje, passamos a
encarnar aqueles velhos do Restelo que vivem constantemente agarrados ao
passado (e notem que eu podia fazer aqui piadas com os tipos de velhos do
Restelo mais comuns, mas como a sociedade já está meio que transformada num
barril de pólvora, vou deixar isso para um outro dia).
Muitas vezes – e não são muitas, e não são poucas, não é?
Bastantes – damos por nós a entoar a plenos pulmões a famosa frase “antigamente
é que era bom!”. E não o fazemos por acreditar genuinamente que antigamente
é que era bom e que o wrestling, tal como a sociedade, devia dar um par
de passos atrás.
Quando o fazemos, enquadramos a frase num exercício muito
mais específico – um exercício que, muitas vezes, quem ouve esta frase ou outra
semelhante não se dá conta que existe. Por exemplo, no wrestling, quando
ouvimos dizer que “antigamente é que era bom!” não é porque o wrestling
nos anos 90 fosse superior em qualidade – porque, esta é a dura realidade,
não era, mas a magnitude das histórias contadas quer pela WWE (na altura, WWF)
quer pela WCW, assim como o clima de guerra de audiências que se fazia sentir
no final dos anos 90 para isso contribuíam.
Mas quando ouvimos um fã de wrestling dizer que “antigamente
é que era bom!” ele não está a fazer menção a uma nostalgia pelos tempos
antigos no geral, mas antes por certos detalhes específicos que antigamente
eram fundamentais na criação da dinâmica de imprevisibilidade pela qual o wrestling
ficou conhecido e que tantos fãs atraiu ao longo das décadas, em Portugal e
no estrangeiro.
Um desses elementos mais comuns – ou dois, se os quiserem
separar, muito embora eu acredite que um e o outro são intrinsecamente iguais –
é o kayfabe. Ou, para quem não é muito forte nas questões
terminológicas, a suspensão da descrença. Esse conceito já está praticamente
morto – tanto que nem o Undertaker, nos últimos anos da sua carreira, se
conseguiu manter em personagem. Mas há outro elemento – quer dizer, este aqui é
mais um detalhe – que é a outra válvula que constitui o coração desta dinâmica
de imprevisibilidade – que hoje em dia é impossível esconder: O efeito
surpresa.
Nós, antigamente, chegávamos aos shows sem fazer a
mínima ideia daquilo que se ia passar. O nosso papel na dinâmica do wrestling,
enquanto meros espectadores que éramos, resumia-se a ligar a televisão e deixar
a magia acontecer. Só isso. E íamos que nem as folhas ao sabor do vento:
Aproveitando aquilo que o show nos trazia, e empolgando-nos com o
desenrolar dos acontecimentos.
Reparem que aqui uso o pretérito imperfeito – “éramos” – e
não o presente “somos”, porque já há muito que deixámos de ser meros
espectadores. Hoje em dia não somos apenas fãs que veem o produto: Somos fãs
que o consomem, no verdadeiro sentido da palavra. E “consumir”, embora não
pareça, é muito diferente do simples ato de “ver” algo, porque quando
consumimos alguma coisa, consumimos, opinamos, comparamos com outros produtos e
criamos expectativas para futuras edições – ou derivados – do produto que consumimos.
Quando vemos, vemos só. Ponto.
E confesso que vi o Dynamite desta semana e fiquei com uma
sensação muito positiva dentro de mim, enquanto fã de wrestling no geral
e enquanto fã de wrestling que cresceu a ver wrestling no tempo
imediatamente anterior à massificação do mundo em particular. Porque eu entrei
naquele show sem saber de absolutamente nada: Nas minhas redes sociais
não pululavam notícias, não se alimentavam rumores, não se especulavam
cenários… nada. Foi um dos primeiros shows em muito tempo em que me foi
possível, simplesmente, disfrutar, sem ficar com aquela sensação de saber que X
ou Y ia acontecer por um qualquer fundamento lógico por detrás do booking.
E digo-vos isto porque – sem estar a querer dar spoilers, mas
já dando – o Dynamite desta semana teve uma surpresa no seu main event –
e uma surpresa com a qual nem eu, e nem o mais otimista dos fãs estávamos a
contar.
E não estávamos a contar com esta surpresa por duas razões:
Primeiro, porque o reinado de Kris Statlander era ainda um reinado
relativamente curto, tendo durado meia dúzia de meses apenas; e depois porque,
apesar de, na altura em que comecei a ver wrestling – cá está, o tal antigamente
– ser muito comum os títulos estarem pelo menos em jogo durante os shows
semanais, essa foi uma prática que foi, lentamente, caindo em desuso, muito
por culpa do mindset da WWE de usar os shows semanais para
construir storylines e canalizar o suspense e o clímax das storylines
apenas para os PLE.
Felizmente, a AEW tem vindo a recuperar, e muito bem, esse
hábito. E eu não sei quanto a vocês, mas eu só posso aplaudir essa medida, pelo
simples facto de que deixa de fazer com que passar pelas edições semanais do
Dynamite e do Collision seja apenas um exercício robótico, maquinal. Isso
tiraria emoção à experiência de consumir wrestling, e Tony Khan percebeu
isso muito bem, diria eu que desde o primeiro dia. E isso torna o wrestling naquela
caixinha de surpresas que nós sempre quiséssemos que fosse.
Que surpresa foi essa que o main event do Dynamite nos
trouxe?
Thekla, AEW Women’s World Champion!
Confesso que esta reviravolta me deixou de boca aberta – genuinamente.
Já aqui falei muitas vezes da Thekla – sobretudo do seu percurso
na STARDOM e de como a sua condição de “terceira roda”, de afterthought,
se assim quisermos, não correspondia, de todo, àquilo que era o seu potencial.
Também falei de que, se calhar, o estilo da AEW não seria o
mais indicado para aquilo que poderia ser a sua carreira, uma vez que Thekla se
destaca muito mais pela dimensão psicológica da sua gimmick do que
propriamente por aquilo que é capaz de fazer dentro do ringue – caraterísticas que
faziam com que, se calhar, fosse um ativo a render muito mais na WWE.
Daí que esta escolha acabe por me surpreender. Não só por
aquilo que já tinha visto da parte da austríaca, mas também porque ainda não
havia passado um ano, sequer, da sua chegada à All Elite. E não me interpretem
mal: Há, efetivamente, quem se torne campeã na sua empresa menos de um ano
depois de lá chegar, e se quiserem um exemplo disso, não vale a pena irem mais
longe: Giulia e Stephanie Vaquer, pouquíssimo tempo depois de chegarem à empresa,
tornaram-se campeãs no NXT (muito embora o reinado de uma tenha sido consideravelmente
mais curto do que o reinado de outra).
Mas a AEW não tem um território de desenvolvimento – pelo menos,
um território de desenvolvimento declarado, muito embora a ROH funcione, em
certa medida, como um exemplo disso mesmo. Para além disso, o roster da
AEW é muito maior em termos qualitativos, e na divisão feminina isso tem-se
notado cada vez mais, depois de vários anos em que esteve inteiramente dependente
de nomes como Toni Storm e Mercedes Moné.
Por isso, também me surpreendeu o facto de o reinado de Kris Statlander ter sido tão curto. Statlander, na minha opinião, é dos melhores nomes que a AEW possui na sua atual Women’s Division, sendo dona de uma consistência e de uma capacidade de conseguir entregar combates de alta qualidade de forma regular que são muito raras de encontrar hoje em dia. Pensei que, depois de um combate tão bom como aquele que Statlander teve contra Mercedes Moné no Full Gear em Novembro, que esta partiria para um reinado longo e consistente, galvanizada pelo enorme feito que foi derrotar uma das melhores wrestlers da AEW – e do mundo também – num PPV.
Será que a AEW deixou de confiar em Kris
Statlander?
Acredito que esta seja a pergunta que tenha ficado no ar
depois do sucedido no último Dynamite. O facto do reinado de Statlander ter
sido tão curto foi uma onda de choque de tal forma grande que pode ter levado
muita gente a pensar desta forma.
Honestamente, não me parece que esteja em causa a confiança que
a AEW tem em Kris Statlander – até porque há vários exemplos de reinados curtos
dentro da companhia.
Hangman Adam Page, por exemplo, teve na perseguição ao então
AEW World Champion Jon Moxley uma enorme e emocionante epopeia. A forma como
esta foi conduzida, bem como o seu climax – na forma do combate no All In – conquistou-nos
a todos. E foi uma vitória tão épica e tão saborosa que, depois disto, todos
pensamos que o reinado de Adam Page duraria algum tempo.
Não foi o caso: Hangman Adam Page durou apenas quatro meses
como campeão, tendo perdido o título para Samoa Joe no Full Gear. Joe, por sua
vez, teve um reinado de apenas um mês como campeão, tendo perdido o título para
MJF no World’s End. E mesmo depois de ter perdido o título, Hangman Adam Page e
Samoa Joe continuam a ter protagonismo e continuam a protagonizar storylines
com outros grandes nomes da empresa.
Portanto, não me parece que o foco da AEW não seja tanto a
duração dos reinados, mas a qualidade – e a posição de Tony Khan acaba até por
ter alguma lógica: Um reinado não precisa de ser longo para ser bom, e a probabilidade
de um bom reinado perder o brilho por ser demasiado longo é bastante real e já
aconteceu. Basta que as histórias que marcam esse reinado sejam bem contadas e
captem a atenção dos fãs para que o selo de qualidade seja aplicado.
Não me parece que a AEW tenha deixado de confiar em Kris Statlander, mas que queira ver do que é que Thekla pode ser capaz com um maior grau de responsabilidade em cima de si, e se as coisas correrem bem, talvez a austríaca esteja pronta para dar o próximo passo.
Surpreendidos com a vitória de Thekla pelo AEW Women’s World
Championship?
E assim termina mais uma edição de “Lucas Headquarters”! Não se esqueçam de passar pelo site, pelas redes sociais, deixem a vossa opinião aí em baixo… o costume. Para a semana cá estarei com mais um artigo!!
Peace and love, até ao meu regresso!!

