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Lucas Headquarters #106 – Despedido!

 



Ora então boas tardes, comadres e compadres!! Como estão? Bem vindos sejam a mais uma edição de “Lucas Headquarters” aqui no Wrestling Notícias!! Desta vez, vamos diretos ao assunto.


Há muito tempo que não estávamos perante uma sucessão de semanas em que chegavam até nós dias cujos acontecimentos punham de lado a habitual indiferença que carateriza a natureza humana. Há muito tempo que não estávamos perante uma sucessão de acontecimentos capaz de colocar todo um conjunto (mais ou menos restrito) de pessoas a mandar bitaites, a falar, a opinar contra e a favor. E é isso que confere também um certo elemento de beleza ao wrestling quando o vemos fora do ringue. E é isso que o torna tão excitante, tão apaixonante, tão… fenomenal (no pun intended).


Longe vão os tempos em que o wrestling, para nós, era apenas aquilo que víamos semana após semana na televisão, e que se resumia apenas a dois homens (ou mulheres) a esgrimir argumentos de forma física e verbal, com uma história mais ou menos ficcional como fio condutor. 


Longe vão os tempos em que o que víamos naquela caixa mágica aos Sábados de manhã ficava naquela caixa mágica até ao Sábado seguinte, quando aquela história continuava e lhe eram acrescentadas mais doses de surpresa e imprevisibilidade, ou simplesmente se contava uma nova.


E a silly season, essa praga que atormenta todo e qualquer desporto durante este Verão que caminha a passos largos para o fim, parece também ter deixado de existir nestes últimos meses, porque tem existido sempre qualquer coisa que acaba por deixar marca nestes conjuntos de trinta a trinta e um dias que se repetem cerca de doze vezes para compor um calendário.


Em Junho, tivemos a estreia de (mais) um show semanal da AEW, que vem dar aos fãs de wrestling mais uma oportunidade para comprovarem o quanto este ramo tem evoluído de há uns anos para cá, enquanto que proporciona aos fãs da All Elite mais um argumento pouco convincente para esfregar a supremacia da empresa de Tony Khan na cara da concorrência mais direta;



Em Julho, começámos à assistir à ascensão de um homem que até há poucos meses era visto como apenas mais um entre tantos. Um homem que tinha cativado magotes de gente com uma personalidade demasiado confiante, mas que tinha toda e qualquer razão para o ser. O público apercebeu-se disso, viu nele o ouro que estava escondido, e ensinou-nos que, no que toca a wrestling, a idade muitas vezes é apenas um mero número no BI: Quando há talento e vontade de querer apostar em alguém, tudo e possível.



Agosto, tratado por muitos como o mês em que o Verão chega ao seu ponto mais alto, acabou por ser o mês em que o mundo do wrestling se viu, emocionalmente, no seu ponto mais baixo. 


Ver partir para sempre alguém que admiramos nunca é fácil, mas ter que o fazer dois dias seguidos deixa uma marca irreparável, sobretudo se tivermos em conta que muitos fãs acompanham este desporto há mais de quatro décadas (nos Estados Unidos bem poderíamos fazer um daqueles estudos do um em cada quatro… relativamente a isto) e viram lutar estes dois wrestlers, viram-nos ser luz nos seus dias mais negros, e por isso estão a lidar com perdas que vão demorar algum tempo a ultrapassar.


E chegamos a Setembro. Uma altura, também ela, pouco animadora, marcada, mais não seja, por um ciclo de regressos que, às vezes, custam a assimilar. Mas se o mês de Agosto terminou de forma impactante, o mês de Setembro começou de forma exatamente igual.


Já toda a gente suspeitava, já toda a gente o dizia, mas pouca gente se preparava, o que é facto é que aconteceu: CM Punk foi despedido, dir-se-ia que com um valente estrondo, da All Elite Wrestling. O homem que fez o impensável, que concretizou aquilo que muitos não conseguem nos dias de hoje – gerar um pop de dimensões estratosféricas de públicos que hoje em dia vão aos shows de wrestling, como a qualquer evento desportivo, para registar lembranças nas redes sociais.



Regressou com estrondo – afinal, já todos pensávamos que, após sete anos de ausência do círculo quadrado, ele nunca mais iria calçar umas botas de wrestling. E regressou, também, com aquela palavra com que os nuestros hermanos de Espanha muitas vezes caracterizam sonhos, desejos e vontades – ilusão. Chegou com a ilusão de corrigir os erros do passado que o levaram a afastar-se de tudo isto; chegou com a ilusão de provar que era agora um homem em paz consigo mesmo, porque só esse género de homens é capaz de ser um líder de balneário.


E para a AEW, claro, isto vinha mesmo a calhar, porque nem com o real aproveitamento de wrestlers que a rival WWE desprezou no passado recente (Malakai Black, Jon Moxley, Claudio Castagnoli…) o epíteto de manda-chuva do mundo de wrestling chegara a estar nas suas mãos. Mas o passo decisivo para isso estava dado, e logo demonstrando, de uma forma ou de outra, que a WWE sempre gostou de guardar rancores de alguém que, por qualquer motivo, lhes vira as costas.




Não demorou muito até que Punk causasse real impacto. Claro que uma superestrela como Punk (e se calhar é sacrilégio estar a usar este termo para descrever alguém como Phillip Brooks) não poderia fazer menos do que almejar pelo AEW World Championship – nem os fãs admitiriam tal coisa. 


Aliás, até se pode dizer, pegando também naquilo que Dave Meltzer opinou a respeito do seu regresso, que parte desse impacto foi causado logo no momento do seu regresso, ou não tivesse ele voltado no AEW Rampage: The First Dance, que teve lugar na cidade que o viu nascer: Chicago, a metrópole mais populosa do estado norte americano do Illinois.


Pouco menos de um ano depois, Punk cumpria o propósito para o qual regressara, derrotando Adam Page pelo AEW World Championship. Justiça quase poética, afinal era só uma questão de tempo até que isso acontecesse. A partir daí, uma rocambolesca sucessão de infortúnios acaba por tirar a chama a todo o êxtase do primeiro ano do regresso de Phil Brooks. 


Cinco dias depois, é obrigado a parar devido a uma lesão no pé, Jon Moxley é coroado campeão interino no Forbidden Door em Junho; a 10 de Agosto, no Quake By The Lake, CM Punk regressa para reclamar o seu lugar como verdadeiro campeão e duas semanas depois é quase squashado por Moxley e vê-se sem o título e sem a euforia do seu regresso.



Diz-se que o homem mais perigoso é aquele que nada tem a perder. E o downfall de Punk começa precisamente por isso: Mesmo partindo para aquele combate como challenger e sem todo o hype que, há um ano àquela parte, havia dado o brilho necessário a um desejado regresso, ainda lhe valia o estatuto de, em termos práticos, ser o homem mais influente da All Elite depois de Tony Khan e dos seus colegas de balneário, que, para mal dos seus pecados, eram também os seus superiores executivos.


E é a descansar à sombra desse facto que CM Punk acaba por ser o protagonista do famoso incidente que dá ao All Out do ano passado o infame epíteto de “Brawl Out”. Vocês sabem, aquele incidente que tem origem nos rumores de despedimento de Colt Cabana, acusações a Kenny Omega e aos Bucks, cadeiras a voar, porrada de três em pipa e uma mão cheia de suspensões.



Ironicamente, quem se ficou a rir disto tudo foi o próprio Punk, com certeza. Vejamos: Ele protagoniza um incidente grave, leva uma suspensão, mas tem a divina sorte de se lesionar no tríceps depois de derrotar Jon Moxley e recuperar o ouro que sentia ser seu por direito. 


Como é que se suspende um homem que, por motivos físicos, já está suspenso de uma forma ou de outra? É claro que Punk só poderia tirar vantagem de tudo isto. De que forma? Dizendo, já depois da poeira ter assentado, que não se portou como o adulto de quarenta e tal anos que é. Claro que isto lhe permitiu, de certa forma, manter o estatuto, “limpar-lhe” e limpar-lhe a ficha criminal, da mesma forma que nos permite a nós avançar até Junho e ver como é que todo o resto desta trajetória descendente se processa.

 

Ora bem, 17 de Junho de 2023, data que marca a estreia daquele que é, como disse, mais um show semanal da All Elite Wrestling, desta feita intitulado “Collision”. E sabem aquele aforismo referente à música que diz “when you’re happy you appreciate the music, but when you’re sad, you understand the lyrics.”? Pois bem. Foi exatamente esse o caso aqui.


Nós estávamos todos com razões para estar contentes: Afinal, Tony Khan ia proporcionar-nos mais uma hora e meia a duas horas de entretenimento semanal para além do Dynamite e do Rampage. E o nosso contentamento com isto transpôs-se, de certa forma, ao regresso do CM Punk, mesmo sabendo da polémica que havia tido lugar nove meses antes. Mas nós não queríamos saber, afinal, o que interessava era que ia haver mais um show, yay!




Há cerca de três meses, ignorávamos; agora, damos-lhe uma importância quase máxima. Porque temos memória curta e, no nosso coração hipócrita, pensávamos que Punk ia ser, novamente, um homem novo (desculpem a redundância). Mas não o era. Nunca o foi. Aquela promo épica (“Tell Me When I’m Telling Lies!”) e a reunião dos CMFTR, a história do Real World Championship… eram tudo, cá está, ilusões. Porque à próxima oportunidade…


E assim foi. Durante o All In, Punk fez um pouco de tudo: Defendeu o Real World Championship contra Samoa Joe,  envolveu-se numa altercação com Jack Perry, a 2 de Setembro foi despedido por justa causa por recomendação do comité de disciplina da empresa e tudo por causa de… vidros. Ou melhor, porque Punk negou a Jack Perry a oportunidade de usar vidros a sério (sim, porque deve haver vidros de brincar…) nos segmentos do Collision).




E até aqui tudo bem. A decisão aceita-se perfeitamente. Punk é, a bem dizer, um lobo em pele de cordeiro, um bully que nunca aprendeu verdadeiramente a sua lição, um homem amargurado, mas que nunca teve intenção de mudar para melhor porque existiria sempre um qualquer estatuto, uma qualquer posição de poder que lhe permitiria escapar quase sempre ileso.


Mas sejamos, no mínimo dos mínimos, racionais (coisa que o reativar da vendeta contra Punk já há muito tempo não permite): Tony Khan vir dizer que “temeu pela sua vida” logo depois de ter despedido Phil Brooks dá a impressão de que, apesar de ter tido tomates para tomar a difícil decisão, este continua a sofrer do mal que muita gente lhe apontou aquando do escândalo do Brawl Out: Falta de pulso. 



Tony Khan é, já um amigo meu me dizia em off (abraço Artur Martins) um “fã de wrestling endinheirado”. Ele pode proporcionar-nos todos os dream matches que quiser, pode fazer voltar todos aqueles que um dia disseram estar fartos do wrestling, mas isso de nada lhe servirá se ele continuar a dramatizar decisões e cenários que têm que ser tomadas para o bem da sua empresa.


E agora, o que se segue para Punk, perguntamos nós ainda a tentar digerir tudo isto. Um regresso à WWE é coisa que, a não ser que aconteça algum milagre das rosas, está completamente posta de parte (e ele bem que vai tentando…). Portanto, é justo dizer que o conto de fadas de CM Punk está encerrado ou perto disso.




Mas é bastante revelador que o final deste conto de fadas seja triste, da mesma forma que é triste que daqui por diante, as pessoas optem – e neste caso com justiça – por fazer com CM Punk o mesmo que a WWE faz com Chris Benoit: Misturar o wrestling com a vida pessoal. CM Punk sai sem honra nem glória, provando aquilo que há muito tempo se diz: Ele precisa mais da AEW do que a AEW precisa dele.




E vocês, que análise fazem ao despedimento de CM Punk?


E assim termina mais uma edição de “Lucas Headquarters”! Não se esqueçam de passar pelo nosso site, pelo nosso Telegram, deixar a vossa opinião aí em baixo… o costume. Para a semana cá estarei com mais um artigo!!


Peace and love, até ao meu regresso!

 







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